Sêneca e a Sucessão Gerencial
Em uma carta ao seu jovem pupilo Lucílio (2), Sêneca (4 a.C – 65 d.C) faz uma digressão sobre a melhor forma de escolher um amigo. Ele observa que temos o mau costume de conceder a amizade e depois avaliar se o novo “amigo” é merecedor da nossa confiança.
“Invertemos a ordem”, registra Sêneca, quando selamos a amizade e depois avaliamos se a decisão foi sábia, quando o correto seria conviver, ponderar, formar uma opinião e, depois decidir se aprofundamos o relacionamento.
Ao reler essa passagem num dia desses, pensei na prática organizacional de promover um candidato a uma posição gerencial e 6 a 12 meses depois, analisar se acertamos na escolha. Aliás, o mesmo procedimento é usado em relação ao treinamento gerencial: primeiro promove-se, depois, treina-se e ao cabo de um ano avaliamos o desempenho. É a tal história de colocar a carroça na frente dos bois.
Por experiência todos sabemos o que pode acontecer quando jogamos dados com questões sérias. A lamúria acerca da perda do excelente técnico em troca de um péssimo gerente é imemorial e dá razão ao argumento do filósofo estóico.
Para Sêneca devemos buscar o conhecimento, viver de acordo com a razão, desenvolver o autocontrole, fruir dos bens com parcimônia e não desesperar perante a adversidade. Só assim alcançaremos uma vida livre, equilibrada e feliz.
Ao reler Sêneca (filósofo identificado com o epicurismo) tive um insight que reforçou minhas teses sobre o pragmatismo em relação ao processo de formação e sucessão gerencial. Trocando em miúdos, a idéia de primeiro testar o candidato a promoção, avaliar a sua capacidade e só então promovê-lo a gerente, coincide com a recomendação do filósofo acerca dos cuidados que devemos ter ao escolher um amigo.
As ferramentas básicas da “prova do líder” são a delegação, o empowerment, a liderança transitória em projetos ad hoc, a observação e a avaliação do desempenho dos sucessores potenciais nas atividades de liderança informal exercidas. Testes psicológicos e a avaliação 360º (a menina dos olhos de RH) não são sucedâneos para informações baseadas no desempenho em atividades especialmente programadas para aferir a vocação gerencial do candidato.
Também enxerguei uma vantagem adicional no método do "prove que é capaz e depois promovemos" quando Sêneca ressalta a importância da confiança na construção e perpetuação da amizade. Ora, confiança se conquista com o decorrer do tempo e de um rol de evidências. É difícil imaginar que a desconfiança nos tornará mais felizes, produtivos, eficazes. Ela é, por assim dizer, o termômetro que mede a autenticidade do vínculo entre pessoas e destas com a Organização que precisa confiar nos gerentes a quem delega poderes para agir em seu nome.
O método de estimular a liderança antes de promover apresenta mais este benefício, ou seja, o de dar tempo para que a confiança seja conquistada de parte a parte.
Nesse meio tempo, os potenciais gerentes se sentirão valorizados em função da oportunidade de demonstrar o seu valor. E como a promoção só acontece após o escolhido demonstrar talento para gerenciar pessoas, recursos, tarefas e negócios, a confiança foi construída tijolo a tijolo, as decisões tomadas com base em fatos objetivos, no lugar de palpites, feelings e riscos não calculados.
Como vêem caros leitores, às vezes aprendemos mais sobre o nosso ofício de administradores e gerentes pesquisando em outras fontes. E, depois, sempre é bom ventilar a mente e pensar ”fora da caixa”.
De Eugen Pfister para o Blog “O Gerente”
Notas
1. Data provável em que Sêneca escreve a carta citada no texto.
2. Sêneca, As Relações Humanas: a amizade, os livros, a filosofia, o sábio e atitude perante a morte, 2ª edição, Landy Editora, São Paulo, 2007.
3. Artigos relacionados (Blog “O Gerente”): (1) O Dom e a Educação na Formação Gerencial; (2) Atire o candidato na Piscina, se Ele Nadar, Promova-o; (3) Formação de Lideres Requer Pragmatismo.